quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Da Escrita


Dizem que para escrever bem é preciso praticar. Pois aqui me coloco à disposição do ofício de escritor, digo, criador, que submete-se a criar histórias, recontadas quase sempre de um imaginário infundado, mesmo com embasamento em pesquisas ou autodidatismo. Dizer de tudo um quase nada e falar de mil assuntos ao mesmo tempo. Dizem, os velhos ditados populares que quem fala a sua vila, fala ao mundo inteiro.

Sei que escrevendo diariamente, assim como lendo, melhoro meu vocabulário, pratico minhas idéias, blá, blá, blá. Porém, será que um texto bem construído deduz uma boa história, ou gostosa de ser lida? Há quem duvide dos críticos.

Particularmente, diria eu, pobre mortal, ousando a mais pura blasfêmia literária, acho que José de Alencar, um exemplo da mais clássica literatura brasileira, possui uma maneira toda própria de escrever, rebuscada, mais que correta, observando religiosamente nossa língua máter, criativo ao compor suas histórias. Histórias que quando me narradas por um interlocutor acho encantadoras. Perdoem-me. Considero um verdadeiro tédio ler seus livros e incompetentemente nunca cheguei ao final de nenhum deles. Talvez o problema seja eu, minha pobre leitura.

Daí, entendo o porquê de o público leitor brasileiro mediano prefira ler Paulo Coelho. Está bem, não me atirem pedras antes que eu me explique. Não disse que concordo, disse que entendo. Explicarei.

Eu, pseudo cérebro pensante, informadora de opinião, aprendi a ler muito cedo e sempre fui incentivada, ganhava livros de presente, mãe professora e pai jornalista. Comprei meu primeiro livro com dinheiro da merenda aos cinco anos de idade. Nunca mais parei. Sonho em ler tantos livros que ainda não tenho, tenho outros tantos que ainda não consegui ler, e vorazmente ainda empresto de amigos, bibliotecas, afins.

Não terminei Iracema, Cinco Minutos, Senhora, Lucíola (quase lá), O Guarani (idem). Mas talvez não seja culpa só dele. Também na estante permanecem quase, eu disse quase, intocados Ulisses, Guerra e Paz, O Outono do Patriarca, O nome da Rosa, Os Sertões. Não desisti ainda. Devo conseguir finalizar O Diabo e o Bom Deus, que Sartre me perdoe.

Acho que é mais uma questão de preguiça. Ler Ulisses sem um dicionário ao lado é uma aventura lingüística. Com um dicionário é um tédio, pois paro a cada duas linhas para consultar ao pai dos burros. Sigo tentando me letrar um pouco mais, enquanto, jornalista, redatora, roteirista, atriz e protodramaturga.

E o que posso dizer do meu amigo já citado, o público leitor brasileiro mediano (não é pejorativo, mas sim “na média”). Ele não foi iniciado nos prazeres da descoberta das letras. Não foi desafiado a entender as diferenciações masculino/femininas de Dom Casmurro – mas sim obrigado a ler o livro para responder questões como “Defenda ou acuse Capitú”. Será que esse mestre-professor ainda não entendeu que essa questão é a menor tratada no livro?

É preciso mudar a origem. Sem punições ou restrições. É preciso despertar em nossas crianças a imaginação que uma boa leitura pode trazer. A criatividade ao pensar cada detalhe da personagem lida. Olhos, cabelos, personalidade, amores, paixões, medos. Aprender a tirar lições para a vida. Aprender a sonhar e a transformar a realidade em sonhos. Apaixonar-se. Descobrir-se. Encantar-se. Viver.

É fundamental que preparemos hoje os professores e pais de daqui a vinte anos. É precioso que eles saibam repassar esse amor e esse desejo. É urgente que eles queiram os clássicos e descubram novos clássicos. É imprescindível que haja/nasça um novo gênio das letras. Enquanto não mudarmos a educação desse pobre País, enquanto Suassuna não for rei, Machado amigo, Oswald ídolo da juventude transviada, não terei o direito de dizer uma vírgula sobre O Demônio e a Srta. Prym (nem que é um plágio deslavado da Alma Boa de Setzuam). Pois é essa a literatura que diverte, distrai. É a literatura que ele, o público leitor brasileiro mediano, entende e gosta. E quem sou eu para dizer que estão errados.

Hoje vou fazer as pazes com Aluízio de Azevedo, e por hora, dêem-se satisfeitos com isso.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Por quê?

Talvez um dia eu tenha consciência de todos os meus passos. Consciência plena de todas as razões ocultas que me levam a tomar decisões tão importantes que podem mudar o meu destino, como, por exemplo, que roupa vestir, ou o ônibus que vou tomar para ir até determinado lugar. Porque coloquei esse sapato, que me faz andar um pouco mais devagar, e penso em todas as pessoas que deixei de cruzar em meu caminho.

O fato de ter pintado as unhas de vermelho desperta tal curiosidade nos colegas, que talvez um esmalte transparente passasse desapercebido. Ou um lilás faria com que parassem de comentar em silêncio e viessem, diretamente, me abordar.

Por que me calo indignada com uma grosseria e vou remoendo até ficar verdadeiramente magoada com uma coisa tão simples, como uma louça suja? E por que não reclamo da louça suja?

Porque escolho viver e conviver com determinadas pessoas e afasto outras de mim. E talvez goste muito mais dessas outras que afastei?

Ai! São tantos porquês nessa vida, que nem mesmo sei o porquê de estar falando sobre isso.

É que minha vida é feita de escolhas. Conscientes ou inconscientes. A mim cabe a responsabilidade por todos os meus passos. Notem que disse responsabilidade e não culpa. Não trabalho com ela. Devo sentir-me responsável, sim, e até arrepender-me de uma ou outra coisa, apreender e fazer diferente.

Ao contrário de tanta gente que sente culpa e se impede de viver. Que culpa os outros, tirando de si toda a responsabilidade por suas escolhas, que resultam na sua alegria ou no seu sofrimento.

E de verdade? Eu não faria diferente. Não lamento o fim de nenhum tipo de relacionamento, por mais que naquele momento eu tenha sofrido como o diabo diante da cruz. Foi esse fim que me permitiu viver tudo que vivi depois disso. Agradeço a esse fim. Permito-me até ficar nostálgica por momentos que algumas de minhas decisões afastaram de mim. Porém, tem que ser uma memória boa. Nada de extravios de sorrisos, prospecção de dores musculares e cultivo de noites insones.

Viva a consciência dos passos, para o amanhã não chegar como lamento de equívocos.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Na hora do almoço

A tarde está fria. Abafada. O sol tímido como em São Paulo não poderia deixar de ser. Acho que as pessoas também acabam ficando um pouco frias, abafadas, e com uma luz um pouco tímida. Esse é um grande paradoxo das grandes metrópoles: tanta gente, tanta cultura, tanta cor, tanta inexatidão que acaba congelando, ao invés e entrar em ebulição.

Caminho pelas ruas procurando um restaurante próximo para almoçar. É incrível como em alguns lugares da cidade que não dorme nunca não se consegue comer. Acabo parando sempre no restaurante do hospital mais próximo. É um pouco cosmopolita também. Diria democrático. Você faz o pedido em uma fila, repleta de pessoas que vieram do interior para consultar, acompanhar parentes, submeter-se a intervenções cirúrgicas, velar os seus. Ao meu lado médicos, enfermeiros, faxineiros, seguranças, e toda gama de profissionais que integram o corpo trabalhador do dito.

São mães com crianças doentes, jovenzinhas no seu frescor, compenetrados senhores que engolem a comida. Tias que apenas beliscam, sem dinheiro para pagar por uma refeição mais completa. E pombos. Muitos desses pássaros que por entre as mesas esperam por migalhas para alimentar-se.

Entro nesse lugar já meio temerosa, sem nunca saber quem ou o quê encontrar. Rostos de todas as cores e formatos. Com todos os traços que a vida tratou de arrumar. Olho pela janela e vejo o pequeno altar, incrustado em uma grande pedra. Em volta uma pracinha. E mais pessoas. O aparelho televisor exibindo mais uma vez a face da cidade.

Que face é essa? Que gente é essa, vinda de todo lugar. Gentes tão diferentes. Gentes tão gente, tão povo, tão batalhadora, sofredora. Gente que tem sonhos. Que perde sonhos. Gente que perde gente, mas é obrigada pela vida a seguir adiante, sobrevivendo. Gente amarga e gente que sorri. Gente que é todo um Brasil, que eu vi sentada naquele restaurante de hospital. Gente que também é Japão, Itália, África do Sul, Coréia, Alemanha, Espanha, Gana, Angola, Austrália, Inglaterra, Líbano, Síria, Grécia, Turquia. Gente que ainda assim é gente.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Egoísmo e medo

Sentimentos intraduzíveis. Compreensões equivocadas. Que pena! O egoísmo é lamentável. Voltamos ao homocentrismo. O sol continua sendo o centro desse sistema, mas os sistemas circulam em torno do umbigo.

Id, ego, super-ego;
Pai, Filho, Espírito Santo;
Mente, corpo, alma;
Consciente, inconsciente, sub-consciente;
Ator, papel, personagem;

É preciso pensar. Exercitar o pensamento. Fazer pensar. Pensar analisando, descobrindo, recriando. Ser criador é pensar e buscar conhecer. A si e ao diferente.

É preciso aceitar-se. Quem sou eu para mim? Quem sou eu para os outros? Quem sou eu realmente? O que preciso hoje é usar o meu conhecimento ao meu favor. Nunca parar de criar. Só é preciso voltar a criar o positivo. Parar de sufocar e ser sufocado. Falar as verdades e ouvir a fala que não foi minha.

Não sou eu nem sou a outra. É um sofrimento por querer ser visto, mais que isso, enxergado. E como libertar-se? Transformar o sentimento em coisa útil. Voltar ao bom humor. Deixar o Eu que sou tomar conta de mim. Focar e agir. E escrever todos os dias.

Respirar sem a ansiedade da falta de ar. Respirar pelo prazer e sentindo todo movimento das partículas entrando e saindo do meu corpo. E o mais importante: me lembrar a cada instante que ensinar é aprender. Perder vícios. Jogar fora a culpa. Transformar medo em amor.

Donde concluo que egoísmo é medo, e na atualidade o medo é o grande mal da humanidade.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Da ausência e das coisas

São Paulo, rua Augusta. Inverno. Vestido. Meia. Bota. Café preto puro. Água com gás. E nem a lua apareceu. Parece meditação: caminhar olhando vitrines, folheando livros, sem procurar nem achar nada. Não penso em nada e sinto minha mente tão livre para ir onde quiser e ao mesmo tempo tão vazia. Sinto paz. É só deixar o tempo passar. Paz! E isso é o melhor que eu poderia ter agora. É tão simples dar uma chance à paz, se é que você me entende.

Virada uma esquina. Mudança de vocabulário. Eu tenho. Com ponto decisivo no final da frase. Que pena me dão as pessoas tristes, olhar triste. Não sabem sorrir.

Ar, mar, lua, luar. Mais um sorriso múltiplo. Quero ser muitas e loucas. Normal. Neurótica, histérica. Uma taça de vinho por Dionísio e o telefone tocar. Um índio no rio de carros da metrópole. Hoje sou caipira cosmopolita que sabe (pode) voar.

Estou aprendendo a amar. A inconsistência do ser – na ausência de frase ou definição melhor. Correto. Incorreto. Etimologia que amola e não afia nem rima e nem prosa. Triste fim de um guarda-chuva vermelho.

Que paciência, beleza, simpatia, tolerância, fair-play e falta de talento precisa ter, além de receber. E que talento é necessário para tanta ausência. E que talento para criticar, quem faz menos e recebe menos ainda por isso?

E para que troféus, saias e gravatas. Tudo uma capa que vai revelar-se no banheiro masculino, com toda podridão que mais tem quem escreve que quem é citado. E não são tristes as citadas, mas infelizes. Cada qual com sua história ou falta dela.

Eu já venci. Pena minha glória escondida. Não sei o que é maior. Meu medo ou minha pena. Sinto mesmo pena desses seres pseudo-humanos. Mas o medo não deixa transformar-se em compaixão. E o gordo me diz 15 minutos. Falácia. Falastríce. Falastrão. Bizarrice. Quero uma câmera fotográfica!

Uma ode crônica aos poetas da cidade. Millôr diz que poeta também é gente. Mas é preciso definir o que é poeta e/ou o que é gente. Aí vou saber se prefiro ser poeta ou ser gente, ou se gente também é poeta, já que poeta também é gente.

E essa gente, será que é gente, ou será que é coisa. Eu vi a coisa na rua, andando pela cidade, dizendo palavras soltas. A coisa coisou comigo. E era tão coisa, a coisa, que eu fiquei coisada, com tanta coisa vestida de gente, andando pela cidade.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Há momentos em que não quero conceituar nada

Aflições momentâneas acerca do ser e de ser.
Definições que por si só perfazem um mundo conspícuo.
Precisamos definir. Eu, porém, reafirmo Sócrates em momentos distintos. “Só sei que nada sei.” “Até que me fizesse a pergunta eu sabia a resposta”.
E poderia ir por aí afora.
Não consigo entender a necessidade de ser alguma coisa, se já sou eu mesma.
Tantas definições ínfimas.
Tanta overdose intelectual, social, financeira, familiar, religiosa.
Tantos “plus” a mais.
A redundância do pleonasmo.
Estilisticamente falando, detesto rótulos.
Por isso me rotulo como inrotulável...
Neologismos à parte.
Quero ser como criança, que responde sempre a velha pergunta: “O que você vai ser quando crescer?” “Grande”. E basta!
Mas não, temos sempre que ser e que ser e que ser. Nunca basta.
Nunca é suficiente.
Uma formiga é formiga.
Um tigre é um tigre.
Por que logo eu tenho que ser alguma coisa além de mim.
Além dos outros.
Além de humana.
Além de Deus.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Namastê

O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você. O que há de mais secreto em mim, saúda o que vejo de mim em você. Que é o que mais desejo e o que mais me incomoda. Busco dentro de mimo que almejo e o que detesto. O que há em mim que não há em mais ninguém, ou em todo o mundo? O que há em mim que não está na natureza. O que há em mim que não é divindade? O que há em mim?
Apenas me permito sonhar. Deixar minha imaginação me levar até as coisas que necessito concretizar. Além das aparências tão importantes para tantos. Não para mim. Prefiro os mistérios e poderes do meu mundo interior.
Sou um bufo, um vagabundo, que parece não saber aonde vai e isto é o que me interessa. Caminhando, olhando, devaneando. Sentindo-me nada, sentindo-me tudo. Eu sou tudo isso. Sou rainha se quero ser. Sou camponesa, sou poeta, sou atriz e quero aplausos. E as pessoas me aplaudem, toda platéia me aplaude, pois é assim que me vejo agora.
A verdade de ser múltiplos em um só, no que chamam loucura, para mim é existência. O que não compreendem é que me faz mais perceptível e mais simples, compreensível. Sou velha, jovem, serena, esperta, ingênua, mártir, deusa e puta.
E vou mais longe. Posso ser a gota que vira nuvem, que vira chuva, que vira rio, que vira mar, que vira lágrima, que vira riso, que vira vento, que vira lua. Trago comigo o céu e as estrelas, o sol e a lua, o mar e a floresta, o vento e os pássaros que voam. O universo é grande demais e somente sendo cada coisa posso ser eu mesma. E compreender o que vocês olham e não enxergam. Para entender Deus, entro em comunhão com o mundo.
Busco a liberdade e a segurança que só na minha profunda loucura posso encontrar e posso confiar. O Louco que habita em mim saúda e admira o louco que habita em você.

Escrever e reescrever

Hoje descobri que tenho um blog. Escrevi apenas uma postagem em 2007. Fui tentar criar um e já havia.
Bem, sendo assim, acho que preciso voltar a escrever.
Rotineiramente. Religiosamente. Diariamente.
A escita urge em mim. Feroz...
Leiam, sintam, sejam parte dela!