quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Na hora do almoço

A tarde está fria. Abafada. O sol tímido como em São Paulo não poderia deixar de ser. Acho que as pessoas também acabam ficando um pouco frias, abafadas, e com uma luz um pouco tímida. Esse é um grande paradoxo das grandes metrópoles: tanta gente, tanta cultura, tanta cor, tanta inexatidão que acaba congelando, ao invés e entrar em ebulição.

Caminho pelas ruas procurando um restaurante próximo para almoçar. É incrível como em alguns lugares da cidade que não dorme nunca não se consegue comer. Acabo parando sempre no restaurante do hospital mais próximo. É um pouco cosmopolita também. Diria democrático. Você faz o pedido em uma fila, repleta de pessoas que vieram do interior para consultar, acompanhar parentes, submeter-se a intervenções cirúrgicas, velar os seus. Ao meu lado médicos, enfermeiros, faxineiros, seguranças, e toda gama de profissionais que integram o corpo trabalhador do dito.

São mães com crianças doentes, jovenzinhas no seu frescor, compenetrados senhores que engolem a comida. Tias que apenas beliscam, sem dinheiro para pagar por uma refeição mais completa. E pombos. Muitos desses pássaros que por entre as mesas esperam por migalhas para alimentar-se.

Entro nesse lugar já meio temerosa, sem nunca saber quem ou o quê encontrar. Rostos de todas as cores e formatos. Com todos os traços que a vida tratou de arrumar. Olho pela janela e vejo o pequeno altar, incrustado em uma grande pedra. Em volta uma pracinha. E mais pessoas. O aparelho televisor exibindo mais uma vez a face da cidade.

Que face é essa? Que gente é essa, vinda de todo lugar. Gentes tão diferentes. Gentes tão gente, tão povo, tão batalhadora, sofredora. Gente que tem sonhos. Que perde sonhos. Gente que perde gente, mas é obrigada pela vida a seguir adiante, sobrevivendo. Gente amarga e gente que sorri. Gente que é todo um Brasil, que eu vi sentada naquele restaurante de hospital. Gente que também é Japão, Itália, África do Sul, Coréia, Alemanha, Espanha, Gana, Angola, Austrália, Inglaterra, Líbano, Síria, Grécia, Turquia. Gente que ainda assim é gente.

2 comentários:

Marcelo Grillo disse...

E gente que também é Burarama... Abraços!

Vanessa Frisso disse...

Burarama é meu pedaço de mundo, onde me sinto uma pessoa melhor, mas esse amor merece outra crônica...